UNA ACLARACIÓN MUY OPORTUNA

Ponemos en el conocimiento de nuestros amables lectores que todo el material que ofrecemos como posts en este blog ha sido extraído de la obra LOS FUNDAMENTOS DEL ESPIRITISMO, previa autorización de su autor nuestro distinguido amigo Prof. Jon Aizpurua.

No nos atreveríamos a divulgar este precioso e invaluable material doctrinario y de divulgación de la cultura espírita si no tuviésemos de antemano la autorización expresa de su autor, de lo contario incurriríamos en el plagio, actitud que nos despierta repugancia tan sólo con mencionar el término.

Hemos escogido esta obra, LOS FUNDAMENTOS DEL
ESPIRITISMO, porque estamos seguros que ella constituye la exposición más actualizada de los postulados doctrinarios expresados por el Codificador Allan Kardec, enmarcados en nuevo contexto paradigamático; el vigente en estos tiempos que corren.

En LOS FUNDAMENTOS DEL ESPIRITISMO el autor reinvidica el verdadero carácter de la Doctrina Espírita, como un sistema de pensamiento laico, racionalista, e iconoclasta, alejado de todo misticismo religioso, tal como fue codificada la Doctrina por el Maestro Allan Kardec en el siglo diecinueve.

Esta obra es eminentemente didáctica, porque está escrita en un estilo ágil y ameno, sin que por ello pierda consistencia en su brillante exposición de ideas, llegando a toda clase de público lector, desde el estudioso del Espiritismo hasta aquellas personas que se encuentran en la búsqueda de una filosofía racional que les ayude a pensar al mundo y a sí mismos.

René Dayre Abella
Nos adherimos a los postulados doctrinarios sustentados por la Confederación Espiritista Panamericana, que muestran a la Doctrina Espírita como un sistema de pensamiento filosófico laico, racionalista e iconoclasta. Alejado de todo misticismo religioso. Apoyamos la Carta de Puerto Rico, emanada del XIX Congreso de la CEPA en el pasado año 2008.

sábado, 13 de junio de 2015

sábado, 9 de maio de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 229 - MAIO 2015


Em 22 de maio de 2015, completam-se 130 anos da desencarnação de um dos maiores gênios da literatura mundial: Victor Hugo, romancista e poeta francês, cujas convicções espíritas marcaram sua obra e sua vida.

As mesas girantes na Ilha de Jersey
No ano de 1857, quando Allan Kardec (1804/1869) lançava, na capital francesa, a primeira edição de “O Livro dos Espíritos”, seu famoso compatriota, Victor Hugo (1802/1885), não vivia em Paris. Por conta de divergências políticas com Napoleão III, então imperador da França, o autor de “Os Miseráveis” se exilara, desde 1852, na Ilha de Jersey, entre a França e a Inglaterra. Nem por isso, o grande poeta e romancista francês esteve alheio aos fenômenos paranormais que chamaram a atenção do Professor Rivail e de cuja investigação nasceria a doutrina espírita.
Na mesma época em que, em Paris, aconteciam as sessões com as chamadas mesas girantes e falantes, Victor Hugo, realizava, em sua casa, naquela ilha britânica, idênticas experiências das quais resultaram interessantes comunicações mediúnicas atribuídas ao espírito de uma filha sua, Léopoldine, que havia desencarnado, anos antes, por afogamento, no rio Sena, e a outras entidades espirituais, entre elas Sócrates, Mollière, William Shakespeare e Dante Alighieri.
Recente atividade cultural do museu “Maison de Victor Hugo”, de Paris (janeiro de 2013), resgatou esses episódios da biografia do imortal francês, com a exposição “Entrée de Médiums – Spiritisme et Art d’Ugo à Breton”, a partir de relatos do também escritor francês André Breton(1896/1966).

As relações de Victor Hugo com o Espiritismo
Em “El Espiritismo y la Creacion Poetica” (Ediciones CIMA, Caracas), Jon Aizpúrua dedica várias páginas à obra de Victor Hugo e suas relações com o espiritismo. As experiências do escritor com as mesas girantes começaram por sugestão de sua amiga, a poetisa e autora teatral Delfina de Girardin, que o visitou em Jersey, em 1853. Dois anos depois, em 1855, Hugo relataria, em carta, a Madame de Girardin: “As mesas me dizem as coisas mais surpreendentes. Quisera falar à senhora sobre elas e beijar suas mãos...ou asas! Todo um sistema cosmogônico  sobre o qual eu estive refletindo e escrito em parte, durante os últimos vinte anos, foram confirmados pelas mesas e com detalhes magníficos. Vivemos hoje um misterioso horizonte que muda todas as perspectivas de nosso desterro e pensamos na senhora, a quem devemos a abertura dessa janela”. Naquele mesmo ano, Delfina de Girardin desencarnaria em Paris, depois de ter tido encontros com Allan Kardec que, então, já preparava “O Livro dos Espíritos”. Ela, mais tarde, enviaria do mundo espiritual, mensagem que integra “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
Victor Hugo só regressaria a Paris com a queda do Império, em 1870, quando Kardec já havia desencarnado (1869), mas, nesse período, manteve intercâmbio com Camille Flamarion, o famoso astrônomo francês, membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fundada por Allan Kardec. Em seus “Anais Políticos e Literários”, Flamarion deixou escrito: “A inquebrantável crença na manifestação dos espíritos foi, para o gigante da literatura do século XIX, um incentivo para a vida, para o trabalho e para o amor a seus semelhantes”.

O pensamento espírita de Victor Hugo em frases
•         “Todos os seres são, foram e serão”.
•         “A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace.”
•         “O homem semeia hoje a causa, Deus amanhã amadurece o efeito”.
•         “Os mortos são uns invisíveis, e não uns ausentes”.
•         “O homem é uma prisão em que a alma permanece livre”.
•         “A arte é uma ferramenta; os espíritos são os operários”.
•         “Digo que a sepultura que se fecha sobre os mortos abre o firmamento, e que aquilo que se toma como fim é o começo”.
•         “O berço tem um ontem e a sepultura um amanhã”.
•         “Quanto mais me aproximo do fim, mais escuto em torno de mim as sinfonias imortais dos mundos que me chamam. Isto é maravilhoso e, contudo, é tão simples”.
•         “Quando me curvar para o túmulo, poderei dizer como tantos outros: meu dia de trabalho começará de novo amanhã. A sepultura não é um beco sem saída, é uma passagem. Ela se fecha no crepúsculo, ela se reabre na aurora!”.

 


Um gênio autenticamente espírita
Dono de rara genialidade na arte de escrever, manifestada já em tenra idade, Victor Hugo passou parte da vida buscando separar sua produção intelectual daquilo que admitia receber do mundo invisível. Deixou, a propósito, escrito que, por “consciência literária e por respeito ao próprio fenômeno”, dele se havia isolado. Dizia: “Impus a mim próprio toda e qualquer mistura em minha inspiração, de modo a conservar minha obra tal como é, absolutamente minha e pessoal”.
Seus críticos, no entanto, notadamente aqueles que admitem e analisam sua condição de médium inspirado, não concordam com essa separação absoluta. Jon Aizpúrua registrou: “Hugo costumava escrever de pé ou caminhando, declamando os versos, deixando cair as folhas de papel ao solo, presa de uma exaltação criadora, própria de seu temperamento genial e da inspiração com que lhe brindavam seus amigos espirituais”.
Com efeito, a mediunidade, vista sob a perspectiva kardeciana, tem o condão de aproximar e fundir ideias e pensamentos intercambiados por inteligências encarnadas e desencarnadas. No caso de Victor Hugo, a presença constante, na mesa mediúnica de Jersey, de humanistas e amantes da literatura, para lá atraídos, justamente pelas energias criadoras do famoso escritor nessa mesma direção, produziam a harmonização de formas e sentimentos por todos compartilhados. Aliás, consignou o escritor argentino Humberto Mariotti, no livro “Victor Hugo, el Poeta del Más Allá”, que o grande escritor francês aceitou o espiritismo como “mensagem de Verdade e de Beleza”. Tais valores ele, naturalmente, cultivou ancorado nos princípios da imortalidade do espírito e seu infinito progresso no rumo da beleza e da sabedoria, marcas que se fazem presentes em toda sua obra.
Ao traduzir o livro de Mariotti para o português, dando à versão o título de “Victor Hugo, Espírita” (disponível em www.viasantos.com/pense), Wilson Garcia sublinhou que era preciso “colocar a posição espírita de Victor Hugo de modo incisivo, porque grande parte dos estudiosos e críticos de sua obra escondem esse aspecto ou torcem o nariz”.
          Contribuindo, modestamente, com esse justo objetivo, e unindo-se ao esforço em prol desse necessário resgate histórico, CCEPA Opinião faz este registro, no mês do 130º aniversário da partida para a dimensão espiritual daquele ilustre compatriota e contemporâneo de Allan Kardec, de cujas ideias compartilhou com bastante intimidade. (A Redação).



O Espiritismo e a “Moral Cristã”
“Nenhuma filosofia espiritualista é mais ventilada, assectária, progressista e racional que o Espiritismo.” (Maurice Herbert Jones, em “Espiritismo: o Pensamento Atual da CEPA”).

          A palavra moral deriva da expressão latina “mos-mores”, que significa “costume”. Costumes, sabe-se, nem sempre combinam com a melhor ética ou com aquilo que Allan Kardec denominou lei natural. Refletindo, em um dado momento, o estágio evolutivo de indivíduos, povos e civilizações, costumes são constituídos por fatores diversos, dentre os quais as crenças daqueles que os adotam.  Por eles se exterioriza a cultura de uma pessoa ou de um agrupamento humano.
          Em nosso meio, nos habituamos a utilizar a expressão “moral cristã”, que, entretanto, é, no mínimo, ambivalente. É verdade que muitos a empregam para designar os valores éticos pregados por Jesus. Outros, no entanto, e é o caso das igrejas que, em seu conjunto, formam a cristandade, tomam-na como expressões mandamentais e regramentos de conduta, resultantes dos dogmas por elas defendidos.
          Precisamente em nome desse tipo de “moral cristã” da qual se dizem guardiãs as igrejas, por muito tempo fomentou-se a intolerância religiosa, o combate violento às chamadas heresias e à liberdade de pensamento, a preservação da submissão do Estado à Igreja, a perseguição a homossexuais, a minorias raciais, etc. Em fase ainda recente de nossa história pátria, retardou-se por decênios a legalização do divórcio, o emprego de preservativos garantidos por uma política laica de planejamento familiar, assim como muitos outros costumes que a sociedade civil terminou por adotar, em franca oposição ao retrógrado pensamento religioso, por tanto tempo dominante. Ainda hoje, as chamadas bancadas cristãs e evangélicas de nossos Parlamentos são forças conservadoras, sistematicamente em oposição às tendências progressistas inerentes ao processo de evolução política e social. Suas posições, sustentam seus integrantes, obedecem aos ditames da “moral cristã”.
          Diante dessa realidade fática construída pelo cristianismo real, esta expressão, “moral cristã”, restou claramente definida e com contornos ideológicos muito bem assimilados pela sociedade. Pouco tem ela ver com o pensamento liberto de Jesus de Nazaré e com o seu ensino de validade universal, aplicável a todas as culturas, independente de crença, livre de dogmas e profundamente humanista. Ao contrário, o perfil construído pela cristandade está fundado em crenças, e sua história está eivada de episódios que contrariam flagrantemente o ensino real de Jesus de Nazaré, embora sob o literal respaldo do mítico Jesus Cristo. Hoje podemos avaliar que entre Jesus de Nazaré, o homem, e Jesus Cristo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade dos cristãos, há contradições e diferenças fundamentais.
          Por isso, não é adequado ao espiritismo, ao referir-se à conduta inspirada por sua filosofia libertadora e progressista, usar a expressão “moral cristã”, como o faz, habitualmente, o chamado “espiritismo cristão e evangélico”, e como vem de fazer, por exemplo, a União das Sociedades Espíritas de São Paulo – USE – em documento divulgado como a “Carta de Santos”, onde os espíritas são chamados a “assumir atitude ética, com base na moral cristã...”.
          O aludido documento com cuja proclamação encerrou-se o 16º Congresso da USE, realizado em Santos, mereceu, aliás, uma vigorosa crítica postada pelo combativo jornalista espírita Wilson Garcia em:  http://www.expedienteonline.com.br/carta-de-santos-uma-leitura/. Os motivos da crítica não são os mesmos da análise semântica e histórica expressa neste editorial, mas se referem às posturas políticas e ideológicos que, de acordo com o articulista, não se coadunam com a “tradição dialógica” daquela instituição. O arguto comunicador que, a propósito, tem, em seu currículo, uma longa folha de serviços prestados à USE, lança em sua minuciosa análise àquele documento esta instigante pergunta: “É ele resposta ao laicismo do grupo de Santos e, por extensão, à Cepa, seus integrantes e diretores?”.
A pergunta, vinda de um profundo conhecedor da história do movimento espírita paulista, deixa clara a perplexidade de seu autor que entrevê, pela leitura do documento, mudanças no perfil institucional daquele órgão unificador. Se afirmativa a resposta à indagação lançada, nós todos, que estamos engajados nesse esforço de fazer do movimento espírita uma expressão generosa de diálogo e de alteridade, só temos a lamentar.  Porque, de nossa parte, seguimos firmes no objetivo de expungir do meio espírita todas as expressões, manifestações e atitudes que neguem seu caráter humanista, progressista, ético, assectário, laico e livre-pensador.
  





O dia em que venci a máquina
A fatura que eu tinha para pagar vencera no dia 25. Mas 25 havia caído no sábado. Na segunda-feira, 27, dirigi-me ao terminal bancário. Coloquei o código de barras sob as luzinhas da máquina para a leitura, e a telinha acusou: título vencido, dirija-se ao caixa do banco para fazer o pagamento.
Não era possível! Digitei novamente minha senha. Entrei, de novo, na área de pagamento de títulos e, em vez de colocar 25, no espaço da data de vencimento, como havia feito antes, escrevi 27. Pronto! Agora foi possível o pagamento.

Inteligência artificial?
Foi necessário usar um pequeno e inteligente estratagema para enganar o computador e fazê-lo permitir que eu pagasse a conta. Tudo porque alguém, encarregado da programação da máquina eletrônica, se esquecera de informar ao sistema que 25 não era dia útil e, logo, os títulos vencidos naquela data teriam seu pagamento prorrogado para a segunda-feira.
O episódio do cotidiano me levou a pensar: fala-se tanto em inteligência artificial; que as máquinas vão dominar o mundo e delas nos tornaremos dependentes ou até vítimas. Bobagem! Por mais fantásticas que sejam essas máquinas, elas nunca pensarão e sempre dependerão de nós, que, inteligentemente, as programamos e as utilizamos.

Os simpáticos robozinhos japoneses
É certo que, sabendo explorá-las convenientemente, o ser humano, com o auxílio dessas fabulosas ferramentas, vai abrindo caminhos fantásticos, inimagináveis há bem pouco tempo. Dias desses, vi na televisão que algumas empresas japonesas já não usam recepcionistas humanas. Simpáticos robozinhos, com aparência e voz feminina, dão todas as informações solicitadas por quem chega à recepção. Todas? Bem, só aquelas que a experiência e a observação humana, de muitos anos, conseguiram detectar como sendo as buscadas pela clientela e que foram implantadas na memória das máquinas. Novas demandas exigirão novas informações a serem adicionadas no “cérebro” dos robozinhos recepcionistas. Quem as adicionará que não o ser humano?

Espírito, princípio inteligente do universo
O Livro dos Espíritos, na questão 23, define o espírito como “princípio inteligente do universo”. Na primeira quadra deste Século 21, a ciência segue presa ao dogma de que a inteligência é produto do cérebro humano. Nasce dessa concepção a utopia de se construir a inteligência artificial, aquela que, dizem, há de ser produzida por cérebros também artificiais. Nesse cenário, o grande desafio dos espiritualistas continua sendo aquele corajosamente enfrentado por Allan Kardec, no Século 19: a proposição de um novo paradigma do conhecimento que tenha por realidade fundamental o espírito imortal.
Toda a problemática espírita está contida no desafio acima. Falhando nesse objetivo, que não é só do espiritismo e que somente poderá ser alcançado mediante a interlocução com incipientes, mas respeitáveis, segmentos com disposição e coragem de fugir do paradigma materialista, a grande proposta de Kardec terá falhado. Poderá subsistir apenas como uma religião. Uma boa religião, capaz de dar consolo, mas inapta a provocar transformações. E é delas que o homem e o mundo estão, de fato, carentes.




Sobre o livre-pensar
Eugenio Lara - arquiteto e designer gráfico, é editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita e autor do livro “Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita”. E-mail: eugenlara@hotmail.com/

É muito comum em depoimentos, artigos e eventos promovidos pela Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), o uso da expressão livre-pensar para designar a atitude que os cepeanos têm diante do Espiritismo. Faz parte, inclusive, do slogan da entidade: kardecista, progressista e livre-pensadora, como lemos a seguir no texto extraído do site oficial da confederação:
“Livre-pensadora porque convida seus integrantes e as pessoas em geral a gozarem, em sua plenitude, do direito ao livre exame de todas as ideias, sem qualquer dogmatismo, e ao aproveitamento de toda reflexão, com critérios e métodos dentro e fora do Espiritismo.
“Liberdade de pensamento, de expressão e crítica são condições necessárias para um espírita autêntico poder se expressar. São direitos irrenunciáveis que a CEPA garante a todas as pessoas a ela vinculadas.” [www.cepainfo.org]
Mas o que é esse livre-pensar e como ele se situa no contexto da cultura espírita? Qual o seu significado para a filosofia espírita?

TRIUNFO DA RAZÃO
O livre-pensar ressurge de modo triunfante no final da Idade Média, com o advento da modernidade, inaugurada por grandes pensadores e cientistas, como Copérnico, Galileu, Kepler, Descartes, Bacon, pelos humanistas do Quattrocento, os renascentistas e, sobretudo, pelos iluministas do Século das Luzes.
Foi o Humanismo, filho dileto da Modernidade, o grande responsável pela mudança de foco e de atitude frente às questões do homem e do mundo. No lugar da fé cega, a razão. O livre-pensar, ao invés do dogmatismo. A Filosofia em oposição à Teologia. O ser humano como a razão de ser de qualquer atividade humana, o centro de tudo, mudando-se assim o eixo de análise, o eixo de importância na compreensão da realidade humana. Tal modo de pensar coincide com o fim da Idade Média, do feudalismo e o triunfo da burguesia. Os tempos são outros...
O livre-pensamento se desenvolve no seio da nascente modernidade como parte de uma atitude universalista de independência, autonomia e autodeterminação diante da realidade, em oposição a uma concepção dogmática e teológica que dominou a filosofia e o saber durante séculos. O livre-pensar é humanista e anticlerical por natureza porque significa uma nova atitude diante do homem e do mundo, amparada pela razão e a experiência, pelo reto pensar. A razão é a luz que ilumina a consciência e a liberta das trevas da ignorância religiosa, cavando assim um fosso profundo entre a ciência e a religião.

KARDEC E O LIVRE-PENSAR
De formação humanista e iluminista, o pedagogo Denizard Rivail, impregnado pelo espírito científico de seu tempo (o positivismo), estruturou uma filosofia espiritualista onde a observação, o livre exame, a razão, numa palavra, o livre-pensar, são componentes fundamentais em seu processo de construção. É interessante observar o que Allan Kardec tem a dizer sobre o livre-pensar.
Em um artigo sobre o avanço do movimento espírita francês, Kardec faz uma interessante análise das duas correntes antagônicas, o espiritualismo e o materialismo, “que dividem a sociedade atual”. As nuances dessas duas correntes são classificadas pelo fundador do Espiritismo em 15 categorias. Os indiferentes, panteístas, deístas, crentes progressistas etc. são algumas das categorias. O que nos interessa é a 14ª categoria, a dos livres-pensadores:
“14º – Os livres-pensadores, nova denominação pela qual se designam os que não se sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de espiritualidade, que não se julgam atrelados pelo culto em que o nascimento os colocou sem o seu consentimento, nem obrigados à observação de práticas religiosas quaisquer. Esta qualificação não especifica nenhuma crença determinada; pode aplicar-se a todas as nuanças do espiritualismo racional, tanto quanto à mais absoluta incredulidade. Toda crença eclética pertence ao livre-pensamento; todo homem que não se guia pela fé cega é, por isto mesmo, livre-pensador. A este título os espíritas também são livres-pensadores.”
Kardec faz uma ressalva e descarta o sectarismo, os “radicais do livre-pensamento”, que deveriam ser incluídos na categoria dos materialistas por sistema, denominação equivalente ao cético agnóstico e sistemático, portanto fanático como qualquer religioso fundamentalista:
“Mas para os que podem ser chamados os radicais do livre-pensamento, esta designação tem uma acepção mais restrita e, a bem dizer, exclusiva; para estes, ser livre-pensador não é apenas crer no que vê: é não crer em nada; é libertar-se de todo freio, mesmo do temor de Deus e do futuro; a espiritualidade é um estorvo e não a querem. Sob este símbolo da emancipação intelectual, procuram dissimular o que a qualidade de materialista e de ateu tem de repulsivo para a opinião das massas e, coisa singular, é em nome desse símbolo, que parece ser o da tolerância por todas as opiniões, que atiram pedra a quem quer que não pense como eles. Há, pois, uma distinção essencial a fazer entre os que se dizem livres-pensadores, como entre os que se dizem filósofos. Eles se dividem naturalmente em: Livres-pensadores incrédulos, que entram na 5ª categoria [os materialistas por sistema]; e livres-pensadores crentes, que pertencem a todas as nuanças do espiritualismo racional.” (Allan Kardec - Olhar Retrospectivo Sobre o Movimento Espírita - Revista Espírita (FEB), janeiro de 1867, grifo meu).

O DESEJO DE KARDEC
O que interessa mesmo ressaltar é a visão de Kardec acerca do livre-pensar, desenvolvida de forma didática, incisiva e bem sintética, captando e expondo o espírito da Doutrina Espírita: Não se sujeitar a nenhuma opinião em matéria de religião e de espiritualidade ou de alguma prática religiosa qualquer. Ser eclético, porque tal atitude corresponde ao livre-pensamento. Não se guiar pela fé cega. Segundo Kardec, “os espíritas também são livres-pensadores”.
Ao admitir o livre-pensar como a atitude autêntica e necessária diante das ideias, a CEPA se alinha ao desejo de Allan Kardec: de fazer do Espiritismo um movimento onde a liberdade de consciência seja uma de suas marcas registradas, em suma, um movimento de livres-pensadores.





Salomão abriu Ciclo de Estudos em Osório
O Diretor do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Salomão Jacob Benchaya, proferiu a palestra de inauguração do Ciclo de Estudos sobre a Obra Kardequiana”, promovida pela Sociedade Espírita Amor e Caridade, de Osório/RS, no último dia 21 de abril. Abordando o tema “Reflexões acerca da Natureza, Caráter e Objetivos do Espiritismo”, Benchaya enfocou, entre outros pontos, assuntos polêmicos, enfatizando, por exemplo, manifestações de Allan Kardec que sustentavam não ser o espiritismo uma religião. Antes da palestra, houve uma mesa redonda da qual participaram colaboradores da entidade anfitriã e um grupo de 15 integrantes do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre que acompanharam Salomão nessa visita à Sociedade Espírita Amor e Caridade.
Na foto, o momento em que o presidente da instituição osoriense, Jerri Almeida, fazia a apresentação de Salomão. Ao apresentá-lo, Jerri reportou-se ao ano de 1978, quando Salomão, em conjunto com Maurice Herbert Jones, então presidente da FERGS, lançava no Rio Grande do Sul a Campanha de Estudo Sistematizado do Espiritismo, “um marco na história do espiritismo no Brasil”, segundo o dirigente da S.E. Amor e Caridade.


“Chico, Você é Kardec?”, em debate do CCEPA
A caminho de Pelotas, onde fez uma palestra pública e coordenou um seminário, promovidos pela Sociedade Espírita Casa da Prece, o escritor espírita Wilson Garcia visitou o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na tarde de 10 de abril último. Em encontro com estudiosos da doutrina espírita, no CCEPA, Wilson ocupou-se de considerações sobre vários temas de seus últimos livros, e, especialmente, a respeito da polêmica acerca da possível reencarnação de Allan Kardec na personalidade de Chico Xavier. A editora EME acaba de relançar o livro de Wilson Garcia “Chico, Você é Kardec?”, ampliando o debate do tema, com depoimentos de importantes personalidades do espiritismo brasileiro. A obra está à venda no CCEPA, ao preço de 25 reais.
Em Pelotas, onde esteve dias 11 e 12 de abril, Wilson Garcia fez palestra sobre o mesmo tema discutido no CCEPA e coordenou o seminário com a temática “Os Espíritos falam. Você ouve?”.
Na foto, um registro da presença de Wilson no CCEPA, juntamente com Maurice Jones, Salomão Benhaya e Milton Medran.




Espiritualidade e ateísmo
Interessante a matéria sobre Espiritualidade e Ateísmo (CCEPA Opinião 228). Não conhecia esse autor. Baixei o "Tratado das grandes Virtudes" e vou ler. Caso seja bom vou adquirir o "O Espírito do Ateísmo".
Na definição que tenho do ateísmo não caberiam especulações de natureza espiritualista, mas, receptivo a novas propostas e principalmente àquelas que sejam próximas às minhas convicções atuais, sinto prazer em conhecer e quem sabe aderir.
Aldo Pires - São José dos Campos - SP. (manifestação postada na lista de discussão da CEPA, na Internet)

Da religião ao laicismo
Li o livro de Salomão Jacob Benchaya “Da Religião Espírita ao Laicismo – A Trajetória do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre”, e, então, descobri, surpreso, o que havia acontecido com a antiga SELC, que frequentei quando morava em Porto Alegre. Muitas vezes, penso que poderia haver um meio termo entre a busca pelo conhecimento e a prática da caridade, digamos assim. Entendo a escolha do CCEPA e me identifico com ela, de certa forma. Ela reflete uma postura desvinculada de ritos e crenças, que norteavam meus anseios de adolescente, quando conheci o Espiritismo. Digo “de certa forma”, porque me sinto hoje em uma espécie de limbo existencial. Acabei por me afastar das casas espíritas e, no fundo, gostaria de empreender alguma tarefa mais significativa do ponto de vista da espiritualidade.
Renato Luis Petry – Brasília/DF.

sábado, 18 de abril de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 228 - ABRIL 2015

  Espiritualidade e Ateísmo 
  É possível conciliar?
Com o livro “O Espírito do Ateísmo”, o filósofo francês André Comte-Sponville busca consolidar tese compartilhada por outros filósofos pós-modernos que defendem uma espiritualidade desvinculada da crença em Deus.

O espírito situa-se no domínio do absoluto, do atemporal
O subtítulo do livro de Comte-Sponville é “Introdução a uma espiritualidade sem Deus”, o que deixa clara sua proposta. A obra trilha caminho diferente de outros livros ateístas contemporâneos que adotam postura agressiva a toda a forma de espiritualidade, vinculando como indissociáveis a crença em Deus e o espiritualismo. É o caso do best-seller de Richard Dawkins, “Deus, um Delírio”. André Comte-Sponville defende a possibilidade de ser ateu e, ao mesmo tempo, cultivar valores que atribui ao espírito. Em sua obra, o filósofo francês admite ser a religião uma forma de espiritualidade, mas “nem toda a espiritualidade é religiosa”, afirma. Dizendo ser a religião “uma crença que aponta para o sobrenatural, para o transcendente, para o sagrado e para o divino”, sublinha não crer em nada disso. Espiritualidade para ele, “é a vida do espírito, especialmente em sua relação com o infinito, com a eternidade e com o absoluto”. Isso não é uma crença, mas, basicamente “uma experiência” que submete “nosso aspecto finito ao infinito, nosso aspecto temporal à eternidade, nosso aspecto relativo ao absoluto”.
Antes de lançar “O Espírito do Ateísmo”, sua mais arrojada obra, André Comte-Sponville defendeu que a prática da virtude não é incompatível com o ateísmo e nem a fonte primordial da virtude é a religião. Em seu livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” (*) cita Spinoza, para quem “a virtude é a própria essência ou a natureza do homem enquanto ele tem o poder de fazer certas coisas que se podem conhecer pelas leis de sua natureza.”.
Toda a obra do autor francês gira em torno de um ateísmo que não prescinde dos chamados “valores cristãos”, como a comunhão e a fidelidade. Rejeita o que chama de “niilismo bárbaro”: “tão nocivo e incivilizado à sociedade quanto os piores fundamentalismos religiosos”.

Ateu também tem espírito
A obra de Comte-Sponville sustenta que “ateu também tem espírito”, ou seja, um lado espiritual. Isso é o que distingue o ser humano dos demais animais. Segundo ele, quando contemplamos uma bela paisagem ou gozamos uma sinfonia de Mozart, é precisamente o espírito que está a vivenciar uma experiência envolvendo o absoluto e o ilimitado.
O autor francês não está sozinho nessa corrente de pensamento que alguns denominam “espiritualismo ateu”. Seu precursor foi outro pensador francês, Alain de Botton, autor de “Religião para Ateus”, obra que recomenda se busque na religião elementos de agregação grupal e de força simbólica, dispensando Deus, a magia e a irracionalidade, mas enfatizando a ética do bem-estar. Mais ou menos na mesma linha, Luc Ferry tem trabalhado insistentemente com ideias de uma ética laica, a ser assumida pela sociedade pós-moderna.

*O livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” pode ser baixado em:
http://www.pfilosofia.pop.com.br/03_filosofia/03_03_pequeno_tratado_das_grandes_virtudes/pequeno_tratado_das_grandes_virtudes.htm -




Conversa para livre-pensadores
O espiritismo não prescinde da ideia de Deus, conceituado na questão número 1 de “O Livro dos Espíritos” como “Inteligência suprema e causa primária de todas as coisas”. Assim, não seria teoricamente correto admitir a existência de um “espiritismo ateu”.
Apesar disso, é crescente o número de pensadores genuinamente espíritas que se mostram inconformados com a cristalização, em nosso meio, do deus pessoal das religiões, notadamente o deus bíblico, “criador de todas as coisas” e cuja vontade e interferências na vida de cada um terminam por tornar nulos o livre-arbítrio humano ou a autovigência das leis naturais, definidas na questão 614 de O Livro dos Espíritos como sendo as próprias leis divinas, sob cuja regência há um permanente criar e recriar na natureza.
Mesmo filiando-se à corrente filosófica deísta, não é na crença em Deus, mas na realidade do ESPÍRITO e suas manifestações que se funda a filosofia espírita. Quando a questão 23 da obra basilar do espiritismo define o Espírito – grafado em inicial maiúscula - como “o princípio inteligente do universo” está aproximando esses dois grandes conceitos – Deus e Espírito – para dar margem a uma concepção de vida que pressupõe o absoluto, o infinito, e extrapola as contingências relativas e finitas da matéria.
A nova corrente filosófica que floresce na França – a mesma França do Professor Rivail - pode não estar preocupada com outros aspectos, para nós muito caros e, mesmo, fundamentais, que dizem com o espírito individualizado, aquele que nasce, vive, morre e renasce, sem perder sua individualidade. Mas, tanto quanto nós, aqueles pensadores veem o ser humano como espíritos, atribuindo justamente a essa sua condição essencial todo o cabedal ético e estético conquistado e a conquistar.
São, pois, posições que se complementam e se harmonizam, recomendando, mesmo, a busca da aproximação, do diálogo, da interlocução. Isto, no entanto, só será viável no dia em que o espiritismo, como aconselhou Kardec, deixar se “enfeitar” com um título que não lhe pertence, o de uma religião (Discurso na SPEE, em 1º.11.1868). Essa é uma conversa para livre-pensadores que, mesmo por caminhos diferentes, poderão conduzir o mundo a um novo e fulgurante patamar (A Redação).

Responsabilidade Penal
Uma reflexão espírita
“Redução da maioridade penal ataca efeitos e não a causa”.
(Tadeu Alencar – Deputado Federal, membro da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara Federal).

O incremento da violência no Brasil provoca, uma vez mais, debate em torno da redução da maioridade penal, constitucionalmente fixada em 18 anos. Reconheçam-se algumas verdades que fundamentam os argumentos dos defensores da ideia. A primeira delas: as estatísticas atestam a crescente escalada de violência entre adolescentes, na faixa dos 15, 16 e 17 anos. A segunda, e particularmente relevante para quem, como nós, espíritas, defende a condição evolutiva humana: cada vez mais cedo a criança atinge condições biopsicológicas de entender o caráter delituoso de fatos definidos como crime. A tradição cristã admite, de há muito, que a criança aos sete anos alcança a “idade da razão” e, teologicamente, já se lhe pode imputar o cometimento do pecado, até dos chamados “mortais”, passíveis de punição eterna. Um modelo, diga-se de passagem, anacrônico e nada compatível com o espiritualismo humanista e minimamente racional.
De qualquer sorte, sustentam os defensores da redução da maioridade penal que um jovem na faixa de 16 anos, aliás, hoje muito bem informado, graças ao avanço das comunicações, e a quem já se faculta, inclusive, participar, pelo voto, dos destinos da nação, deveria, necessariamente, ser responsabilizado pela prática de delitos, muitas vezes de enorme gravidade.
Estão equivocados. A responsabilização existe. O Brasil dispõe de uma legislação modelar prescrevendo a menores inimputáveis medidas socioeducativas que vão da mera advertência, para infrações de baixo potencial danoso, até a supressão da liberdade, retirando-se o menor do convívio social para submetê-lo, teoricamente, a rigorosos processos educativos em estabelecimentos especializados.
O espírito da lei, observe-se, para o menor de 18 anos, não é de punição, mas de reabilitação. Em perfeita consonância, aliás, com preceito expresso na questão 796 de O Livro dos Espíritos onde se deplora a existência de leis que “mais se destinam a punir o mal depois de feito do que a lhe secar a fonte”, acrescentando: “só a educação poderá reformar os homens que então não precisarão mais de leis tão rigorosas.”. Mostra-se correta, pois, a posição de alguns parlamentares brasileiros que se opõem à redução da maioridade penal, sob o argumento de que isto apenas atacaria os efeitos, quando, o que a lei deve buscar é reduzir a prática do crime. 
É equivocada a ideia de que a criminalidade infantojuvenil decorra da lei ou da falta dela. O fenômeno, antes, é fruto das graves distorções educativas de nossa sociedade. Famílias desestruturadas, ausência de valores éticos motivadores do agir pessoal, exemplos danosos partindo de autoridades públicas, descaso com o ensino e com a educação no lar e na escola, contribuem, sabidamente, para uma cultura criminógena. Na quadra da vida em que o espírito encarnado é mais suscetível à aquisição de hábitos a nortearem sua existência, tais distorções muito provavelmente o impelirão a rumos nefastos para si e para os que o rodeiam.
Não será aplicando-lhes as mesmas sanções de pessoas adultas e, muito menos, fazendo-os cumprir suas penas junto a experientes e empedernidos criminosos que se irá resolver o grave problema da criminalidade de jovens de 16 a 18 anos. Há, sim, que se aprimorar o sistema, dotando os meios hoje existentes - tão precários, ainda -, de efetivos recursos materiais e humanos, voltados à sua educação e recuperação. Sempre é tempo para isso, especialmente a partir da premissa de que espírito algum é irrecuperável.





A queda do airbus
Escrevo a coluna sob o impacto da queda do Airbus sobre os Alpes franceses, no dia 24 de março. Este não foi o primeiro, nem será o último. Desastres aviatórios acontecem desde que Santos Dumont aventurou-se a fazer voar artefatos mais pesados que o ar. Mas este não foi um simples acidente. Ao jogar o avião sobre as montanhas geladas de Seyne-les-Alpes, Andreas Lubitz, 28 anos, deliberou tirar sua própria vida e a de 149 outras pessoas, incluindo aí bebês e adolescentes.

A fragilidade humana
A primeira reflexão sugerida pela tragédia desnuda a fragilidade da vida humana. Nada garante que, a qualquer momento, não seja ela extinta por um acontecimento fortuito, rotineiro, ou por um ato insano ou violento. E, então, perplexos, nos perguntamos: Como pode ser frágil assim um ente de tão riquíssimos atributos como o ser humano? Por milhões de anos, a natureza foi construindo esse complexo biológico dotado de aguçados sentidos, racionalidade, sensibilidade e aptidão de transformara si e a seu meio. O que há de errado nas leis da natureza que permitem a destruição de pessoas em condições tão flagrantemente injustas? Em cada uma sintetizam-se todas as conquistas evolutivas da espécie e se fazem presentes elementos personalíssimos que a tornam única, singular. Destruída, resta a frustração, talvez a negação de que possa, realmente, haver um sentido para a vida. A vida humana e o próprio universo seriam regidos pelo caos.

A natureza e a morte
Arthur Schopenhauer sustentava que a natureza não tem a menor preocupação com a morte: “Contempla a partida com ar indiferente, não se preocupa com a morte ou a vida do indivíduo”, entregando-o “a todos os acasos” e “não fazendo o mínimo esforço para salvá-lo”.    Mas, paradoxalmente, segundo o filósofo alemão do Século XIX, é justamente com essa sua indiferença que a natureza nos dá a grande lição da imortalidade, eloquentemente presente em suas leis.
Allan Kardec elencou entre as dez leis fundamentais da natureza a de destruição: “É preciso que tudo se destrua para renascer e se regenerar”. O que chamamos destruição, “é apenas transformação que tem por objetivo a renovação e o melhoramento dos seres vivos”, disseram-lhe seus interlocutores espirituais.

Na morte, o sentido da vida
Então, por aí, podemos divisar na morte o sentido da vida, mesmo quando flagrantemente injusta e ainda que resulte de ato cruel ou insano, capaz de produzir indignação. A propósito, um raciocínio raso aconselharia o conformismo diante de episódios assim, porque eles estariam previamente marcados e integrariam um mapa de reajuste individual, necessário ao progresso do espírito. Fosse assim, também aí estariam a crueldade e a insanidade, contrárias à natureza que não quer o caos, mas busca a harmonia. Mesmo indiferente à morte, por não ver nesta mais que um episódio da vida, a natureza oferece meios mais nobres de regeneração e crescimento.
Nego-me a aceitar que acontecimentos da dramaticidade e da estupidez daquele dos Alpes possam encerrar qualquer forma de justiça. Compreendo o sentido da morte, o que não me obriga a sempre me conformar com ela.






“O princípio vital é a força motriz dos corpos orgânicos“ (Allan Kardec em comentário à pergunta 67 de O Livro dos Espíritos).

“Atrás de cada usuário de drogas existe um ser humano“ (Ana Regina Noto – Coordenadora da Campanha Nacional sobre Drogas).


O Centro de Integração Empresa Escola (CIEE) promoveu no dia 08 de dezembro o seminário “A educação, prevenção às drogas e tabagismo”, onde foram apresentados alguns números que merecem destaque: um levantamento nacional entre universitários das 27 capitais brasileiras, realizado em 2010 aponta que 86% dos universitários já utilizaram álcool; 47% consumiram produtos de tabaco e 49% já usaram alguma substância ilícita.  Como de costume, encerraram o seminário conclamando por parte da sociedade um forte engajamento no grande combate contra as drogas .

O objetivo, nobre por sinal, é preparar as novas gerações formando cidadãos mental e fisicamente sadios, pois eles são o melhor legado para o futuro do país. É um chavão muito batido, mas que, em outras palavras, significa que a educação é o melhor remédio.

Na pergunta 68 do Livro dos Espíritos, Kardec indaga qual a causa da morte entre os seres orgânicos, tendo como resposta dos espíritos ser “o esgotamento dos órgãos a causa da morte entre os seres orgânicos“. Na teoria espírita se dá muita importância à ação do espírito sobre a matéria e que a vida é um efeito produzido pela ação de um agente sobre a matéria.

Percebe-se, então, a enorme importância desse equilíbrio matéria/espírito durante toda a nossa encarnação. Cuidar do nosso corpo passa a ser, pois, de suma importância para uma encarnação produtiva.

Segundo o CIEE, algumas ações de prevenção têm resultado em efeitos positivos, como, por exemplo, o número de fumantes que corresponde hoje a 11,5% da população entre 12 e 65 anos. No começo da década passada eram mais de 30%. Essa redução se deve a medidas de restrição e ao aumento, de cerca de 108%, na taxação. A campanha também se baseou na apresentação dos efeitos colaterais desagradáveis causados pelo uso intensivo do cigarro.
No mesmo seminário, ficou evidente que a porta de entrada hoje de todas as drogas é o uso abusivo do álcool, notadamente entre os mais jovens.
A se destacar na apresentação dos trabalhos é, a meu ver, a carga enorme de trabalho preventivo dada às escolas e à prática de esportes no sentido da prevenção contra as drogas. Mesmo assim, alertam: “os traficantes já estão nas escolas”. Preocupa-me a pouca citação, ou quase nenhuma, na verdade, do papel da família e da educação no lar. A importância de uma espiritualidade sadia sequer é mencionada, pois, por força da laicidade do estado, espiritualidade passa a ser encarada como uma questão de foro íntimo.
                                                                                                              
 Quanto a nós, espíritas, sempre acreditei que temos a obrigação de apresentar aos nossos filhos a riqueza do Espiritismo no desenvolvimento de nossas vidas, pois trata-se de uma filosofia espiritualista isenta de preconceitos, que exige estudo e cultura de seus adeptos e vê na vida futura o seu paradigma para atuação vibrante na vida presente.  Daí a relevante importância que a doutrina espírita dá à fase da infância na formação de valores, aperfeiçoamento moral e eliminação de vícios de caráter.

Em resposta à pergunta 383 (Livro dos Espíritos), de qual seria a utilidade para o Espírito em passar pelo estado de infância, os nossos amigos espirituais asseveram que “o Espírito encarnando para se aperfeiçoar, é mais acessível durante esse período às impressões que recebe e que podem ajudar o seu adiantamento, para o qual devem contribuir aqueles que estão encarregados da sua educação“ .  Sábias palavras.




Depois do Curso Básico, um novo CIBEE
Com programação de cinco módulos, sempre às quartas-feiras, à tarde, teve início dia 25 de março, o Curso Básico de Espiritismo, ministrado no Centro Cultural Espírita. Após a saudação feita pelo presidente do CCEPA,Milton Medran Moreira, aos cerca de 40 participantes do curso, foi desenvolvido o primeiro módulo – “O Que é o Espiritismo”, porSalomão Jacob Benchaya. Seguiram-se, nas quartas-feiras subsequentes, os módulos “Imortalidade, Sobrevivência e Evolução do Espírito”, “Comunicação Mediúnica” e “Pluralidade das Existências e dos Mundos Habitados”, todos eles expostos pela pedagoga Dirce Teresinha Habkost de Carvalho Leite(foto).
O último módulo, com a temática “Consequências Morais do Espiritismo”, no dia 22 deste mês de abril, estará a cargo de Milton Medran Moreira.
Os participantes do Curso que desejarem permanecer vinculados às atividades do Centro Cultural Espírita poderão participar de um novo grupo regular de CIBEE (Ciclo Básico de Estudos Espíritas) que, coordenado por Dirce, deverá se desenrolar também às quartas-feiras e no mesmo horário, em caráter permanente. O novo grupo está aberto a todos os interessados.

CCEPA presente no Fórum do Espírito Santo
Cerca de dez integrantes do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre já confirmaram presença no VII Fórum do Livre-Pensar Espírita, promoção da CEPABrasil, que acontece dias 28, 29 e 30 de maio, na cidade de Domingos Martins, região serrana do Espírito Santo.
Com o tema “Contribuição da Filosofia Espírita para o Desenvolvimento Ético da Sociedade”, o presidente do CCEPA, Milton Medran Moreira, será um dos painelistas do evento que tem como temática central “A Contribuição Livre-Pensadora para o Desenvolvimento da Natureza do Espiritismo”. Para coordenar um dos painéis do Fórum, também foi convidado o ex-presidente do CCEPA, Rui Paulo Nazário de Oliveira.

Salomão e caravana do CCEPA em Osório
No próximo dia 21/4, o Diretor do Departamento Doutrinário do CCEPA,Salomão Jacob Benchaya (foto)a convite da Sociedade Espírita Amor e Caridade, de Osório/RS, profere palestra, ali, com o tema “Natureza, Caráter e Objetivo do Espiritismo” (20h). Um grupo de colaboradores do CCEPA acompanhará Salomão a Osório, para um encontro com os trabalhadores da instituição anfitriã.




Pena de morte
Excelente o comentário do colunista Milton Medran Moreira em “Opinião em Tópicos” de março. Se, para quem é materialista, o bom senso indica que pena de morte é algo errado (afinal, seria tentar resolver um crime cometendo outro), imagina para nós, que conhecemos o lado espiritual.
Paulo Roberto Daguer Rubin – Porto Alegre/RS.

Por uma nova ética
A análise feita pelo editorialista deste jornal me fez lembrar a comunicação de um espírito coletada por Kardec na qual ele (o espírito) fala que os homens dão extrema importância às questões e paixões políticas, mas esquecem e enxergam com  menosprezo as questões morais. Nesta comunicação, o espírito fala que devemos voltar a nos empolgar com as questões ditas morais. Não serei eu que irei desprezar as questões políticas, mas realmente devo concordar, como espírita que sou, que o individual reflete poderosamente no social.
Homem e mundo e mundo e homem influenciam-se reciprocamente. Neste sentido, além de nossos problemas políticos e institucionais, penso que nosso país passa por uma crise de valores éticos tremenda. Temos até uma frase paradigmática da formação ética brasileira: "o negócio é levar vantagem em tudo, certo?"
Estamos vivendo em um país em que um importante Senador da República fala que quer ver  a Presidente sangrar até o fim de seu mandato, para o seu partido, ao final de tudo, tomar o poder.
Vivemos em um país em que setores da população não têm vergonha de ir à rua com uma faixa pedindo a volta da ditadura militar, esquecendo das dores e lágrimas de todas as vítimas deste período negro de nosso país.
Por outro lado, de que adianta sairmos às ruas batendo panelas pedindo mudanças coletivas, se somos incapazes de ser gentis, humanos e éticos  no trânsito, em nosso condomínio, nas ruas, em nosso trabalho etc?
RIcardo de Moraes Nunes – Guarujá/SP.


quarta-feira, 18 de março de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 227 - MARÇO 2015

A fé que mata
O ano de 2015 iniciou com o recrudescimento do fundamentalismo religioso no mundo, uma ameaça aos esforços humanos em prol da laicidade do Estado e da espiritualidade livre, humanista e progressista
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O massacre do Charlie Hebdo
Embora sem resultar no mesmo e expressivo número de mortes do episódio de 11 de setembro de 2001, em Nova York, o atentado ao jornal Charlie Hebdo, de Paris, perpetrado no último dia 7 de janeiro, passa à História como forte expressão de uma das mais angustiantes tragédias da atualidade internacional: o danoso avanço do fundamentalismo religioso e de sua capacidade de espalhar terror no mundo civilizado.
O ataque feito pelos irmãos Said e Chérif Kouachi, somado a outro contra um mercado de alimentos judaicos, na capital francesa, terminou por vitimar 17 pessoas. Extremistas religiosos ligados ao Estado Islâmico logo reivindicaram a autoria dos atentados, em represália ao fato de o jornal francês publicar charges satirizando o profeta Maomé e em face das divergências históricas entre a fé muçulmana e as crenças cristãs e judaicas.
         
A fé justificando o crime
Tanto quanto o cristianismo e o judaísmo, o islamismo admite diferentes formas de interpretação, gerando oposições internas entre umas a outras. Por ocasião dos atentados, a Liga dos Estados Árabes condenou aqueles atos, e a Universidade Al-Azhar publicou manifesto rechaçando a violência, segundo ela, sempre contrária aos ensinamentos do Corão, independente do “crime cometido contra os sagrados sentimentos muçulmanos”. Entretanto, diferentes setores radicais islâmicos comemoraram as mortes dos “infiéis", ratificando a crença de que a fé islâmica está destinada a dominar e redimir o planeta. O extremismo islâmico prega a legitimidade da luta “contra aqueles que não creem em Alá e que não adotam a religião da verdade”, segundo texto literal nos versos 9:5 e 9:29 do Corão.

Um Estado contra o Estado de Direito
O recrudescimento do radicalismo islâmico ganhou maior significação no contexto internacional contemporâneo, a partir da fundação do Estado Islâmico. Consolidando movimentos terroristas da facção jihadista, a mais radical das concepções muçulmanas, um potente califado com governo e pretenso território, este tomado da Síria e do Iraque, foi proclamado em 2014. A organização afirma autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos do mundo. Aspira ao controle político sobre todo o Islã. Prega abertamente a eliminação dos “hereges” e “infiéis”. Suas ações terroristas não poupam sequer muçulmanos de outras correntes, mas são especialmente direcionadas a pessoas e povos do Ocidente. Nos últimos meses, inúmeras execuções foram perpetradas contra reféns de diferentes países cuja política se opõe a seus métodos violentos. Extremamente cruéis, exibem, pelas redes sociais do mundo inteiro, vídeos onde suas vítimas são decapitadas ou queimadas vivas, depois de submetidas às piores torturas psicológicas.




O conhecimento que liberta
A história de povos e comunidades onde viceja a crença no monoteísmo – judaísmo, cristianismo e islamismo - está repleta de capítulos de barbárie, desfechados ou apoiados, inclusive, por suas hierarquias religiosas. A fé em um Deus pessoal a cuja palavra se credita, cega e literalmente, a autoria do conteúdo dos ”livros sagrados”, acaba por se sobrepor aos valores humanos. A autoridade, a onipresença, o domínio pessoal atribuídos àquela entidade e a sacralidade de sua “palavra” tendem a produzir um tipo de crente de mentalidade retrógrada, subserviente e intolerante. Daí à violação dos mais fundamentais direitos do homem é um passo, capaz mesmo de levar às piores atrocidades.
Todas as culturas, notadamente o monoteísmo, experimentam o embate entre o conhecimento e a fé. No Ocidente, mesmo enquanto a religião açambarcou o poder civil e administrou as fontes formais do conhecimento, espíritos corajosos rebelaram-se contra o dogmatismo religioso, sempre que atentasse contra a razão. O Iluminismo abriu caminho ao cultivo da razão sobre a fé. Assim mesmo, guardamos marcas dos séculos em que nos foi vedado raciocinar livremente.
Nesse contexto, reconheça-se a contribuição do espiritismo, em países onde sua filosofia é conhecida e assimilada. Sem qualquer menosprezo às tradições religiosas, notadamente à cristã em cujo seio nasceu e se desenvolve, sua proposta é a contextualização de toda e qualquer revelação religiosa. Reconhecendo valor cultural e moral nos chamados livros sagrados, a nenhum considera, entretanto, detentor infalível de verdades eternas.
Toda a revelação só se convalida na medida em que for abonada pela razão e se conformar àquilo que O Livro dos Espíritos classificou como lei natural, gravada na consciência do espírito imortal. Isto revoluciona o conceito de fé, como, aliás, propõe Allan Kardec, em lapidar sentença: “Fé inabalável somente é aquela capaz de encarar a razão, face a face, em qualquer época da humanidade”.
Só a plena adequação da fé ao conhecimento poderá superar as grandes e pequenas intolerâncias ainda existentes nos meios religiosos. (A Redação)



Brasil em busca
de nova ética pública
À medida que a civilização se aperfeiçoa, faz cessar alguns dos males que gerou, e esses males desaparecerão com o progresso moral (Allan Kardec, comentário à q.793, L.E.).

Discute-se, academicamente, no campo da psicologia social, se é o ser humano o agente transformador da sociedade ou se, ao contrário, é a sociedade que transforma o indivíduo.
No meio espírita, costuma-se afirmar que toda a transformação da sociedade resulta do esforço do próprio homem, na busca de sua transformação pessoal. As mudanças sociais seriam, dessa forma, o somatório das qualidades humanas. Transformando-se o homem, individualmente, por via de consequência, a sociedade estaria transformada. Não por outra razão, consagrou-se, em nosso meio, a expressão “reforma íntima”, atribuindo-se a esta a capacidade de se mudar o meio em que vivemos.
Se considerarmos a sociedade simplesmente como um aglomerado de pessoas, destituída de uma consciência coletivamente construída, a fórmula acima seria de todo inquestionável. Mas, sociedade é um pouco mais do que isso. Ela é produto de uma cultura. Cultura, sabemos, é construção que se faz ao curso do tempo. Resulta de crenças, de valores, de experiências coletivas, de costumes arraigados, adquiridos no processo inter-relacional. Nós, espíritas, levamos em conta, inclusive, as prováveis múltiplas experiências encarnatórias coletivas na formação da cultura de um povo. A cultura exerce sobre o indivíduo enorme influência. Não raro, o modifica radicalmente.
Talvez por isso mesmo, muitos daqueles valores que construímos a partir do esforço de transformação individual, mas que ainda não integram a cultura da sociedade a que pertencemos, pareçam-nos tão difíceis de se impor.  Mais do que isso: difíceis mesmo de serem vivenciados por nós próprios, diante de circunstâncias onde os hábitos sociais abonam comportamento diverso daquele que, intimamente, já aprendemos a entender como correto.
Felizmente, entretanto, a cultura não é estática. Há um dinamismo natural que, às vezes, em muito pouco tempo, opera enormes transformações sociais, políticas e éticas. Allan Kardec utilizava-se da expressão “força das coisas” para nominar esse processo de transformação de valores e de costumes que se impõem a uma sociedade.
O Brasil vive, hoje, indubitavelmente, um choque ético de considerável dimensão. Afortunadamente, várias de suas instituições republicanas despertaram para a necessidade de uma ação enérgica no sentido de investigar, coibir e punir velhas práticas incrustadas em sua cultura política e cujos resultados vinham, ultimamente, assumindo proporções devastadoras.
Não resta dúvida de que isso é resultado do amadurecimento de uma consciência social e política capaz de influir decisivamente não apenas no futuro político da nação, mas também no procedimento de seus cidadãos.
Isso não invalida aqueles esforços que sejamos capazes de realizar, intimamente, no sentido de domar nossas imperfeições. São forças que se complementam. O cultivo pessoal da virtude, além de nos gratificar com a paz de consciência, gera o exemplo, capaz de iluminar outras consciências, notadamente na convivência familiar. Mas, no macro espaço social, as grandes iniciativas inspiradas pela consciência coletiva são, igualmente, forças decisivas que impulsionam a melhoria ética do ser humano.
Enfim, ninguém é uma ilha. Convivemos, interagimos, influenciamos e somos influenciados. Como nos assegura a doutrina espírita, somos espíritos imortais em processo de evolução. Responsáveis que somos por nossa própria transformação moral, dispomos também, seja qual for o meio em que estivermos inseridos, de maior ou menor capacidade de transformação dos costumes, rumo a uma ética coletiva superior.

         


Pena de morte?
Recente pesquisa feita por aqui apontou: mais de 55% dos gaúchos se declararam a favor da pena de morte. A medida, embora inviável constitucionalmente – a não adoção da pena capital é cláusula pétrea da Carta Magna de 1988 –, vem ganhando espaço em todos os segmentos sociais, no país.
 Em meus tempos de faculdade de Direito, nos anos 70, a oposição à pena de morte era praticamente unânime, nos meios jurídicos. Em sentido contrário, recordo da luta de um certo deputado federal carioca,  Amaral Netto. Elegeu-se por oito mandatos consecutivos, tendo como único programa de campanha a introdução da pena capital. Morreu sem atingir seu objetivo. A consciência jurídica nacional rejeitava a pena de morte. Hoje, há, entre nós, muitos juristas favoráveis à sua introdução. Por que será?

A posição de vanguarda de O Livro dos Espíritos
Diante da sofisticação da criminalidade, agora formando cartéis organizados, movidos especialmente pelo tráfico de drogas - talvez, o maior dos males de nosso tempo -, pessoas de boa formação dão mostras de capitulação: só a pena de morte poderia reverter o quadro. Errado. A experiência civilizatória e a evolução do Direito Penal têm demonstrado que a barbárie não se reduz com o emprego de penas de caráter meramente retributivo. Retribuir o mal com outro mal de idêntica graduação causa à sociedade mais danos do que aqueles provocados pelo mal que se quer punir. Incita o espírito de emulação entre Estado e criminalidade. A sociedade torna-se ainda mais violenta, mergulhando em infindável guerra entre o “bem” e o “mal”. Quando O Livro dos Espíritos, em sua questão 760, prognosticou a abolição da pena capital das legislações humanas, antecipava a existência de organismos políticos internacionais nos moldes da atual União Europeia, que só tem como integrantes países onde não há a pena capital. Ao tempo do nascimento da doutrina espírita, praticamente todas as nações europeias adotavam a pena de morte.

Direitos humanos
Qual, então, a solução? Deixar de punir? Absolutamente. O Estado tem o dever de zelar pela ordem. E o exercício da justiça punitiva é atribuição que o contrato social lhe outorgou. Entretanto, a pena perde inteiramente seu sentido se não estiver movida pelo escopo da educação e da reabilitação do delinquente. É nesse contexto que se devem entender os direitos humanos, tão vilipendiados e pouco compreendidos pela maioria das pessoas. Não se trata de concessão, a delinquentes, de direitos que os cidadãos de bem não possuem. Trata-se de lhes garantir o direito de viver com o mínimo de dignidade humana, mesmo que segregados da sociedade, para a qual deverão, um dia, retornar, reeducados e convencidos de que não vale a pena delinquir. Todos, assim, “bons” ou “maus”, ganharemos com esse tipo de política. Custa dinheiro? Custa. Mas, um dia o Estado terá que adotar políticas com esse embasamento filosófico, se deseja frear mesmo a criminalidade.

Uma grande família chamada humanidade
Manuel Porteiro, admirável pensador argentino, via a sociedade humana como uma grande família. A reencarnação, nesse contexto familiar, não seria mero instrumento de retribuição punitiva, mas, fundamentalmente, de reeducação, através da disciplina, da solidariedade e do amor.
Um argumento que me parece definitivo contra a pena de morte para quem adota a filosofia espírita: o delinquente eliminado de forma violenta tende a voltar para essa mesma sociedade, revoltado e com sentimentos de vingança. A pena capital apenas adia e agrava os problemas que deseja extinguir.




O diálogo entre fé, razão e dúvida 
Jerri Almeida  -  Professor, autor, entre outros, do livro: “Kardec e a revolução na fé”.
                                       

A fé não exclui a dúvida! No espiritismo, a dúvida dialoga filosoficamente com a fé. O argumento da “verdade absoluta”, em qualquer área do conhecimento, é um “erro absoluto”. No exercício intelectual, na busca do conhecimento e da construção da fé, não se deve desconsiderar os limites naturais de cada um, e a possibilidade de autoengano. Certezas e dúvidas fazem parte desse percurso!
A dúvida pode ser um instrumento, como foi para Descartes na filosofia, capaz de conduzir para a análise e rejeição de certas opiniões ou conhecimentos instituídos pelas tradições. A dúvida parte de uma incerteza sobre determinado assunto. Se esse assunto diz respeito às questões religiosas e existenciais, então, essa “dúvida” poderá carregar certas angústias.
Nesse caso, poderá ser considerada uma “dúvida natural”, quando vem acompanhando o indivíduo em sua caminhada existencial, ou uma “dúvida despertada”, quando gerada por uma situação externa. Por exemplo, o defrontar-se com a morte de uma pessoa querida, poderá despertar no sujeito dúvidas sobre a existência de Deus e o sentido da vida. O evento “morte”, por vezes, gerador de “angústias”, torna-se capaz de desencadear dúvidas.
Dúvidas e angústias poderão motivar um processo de busca por respostas mais consistentes. Nessa jornada pessoal, percorrerá o sujeito inúmeras possibilidades explicativas, sintonizando-se com aquela que melhor apaziguar suas angústias emocionais e inquietações intelectuais.
A relação ou a proximidade entre fé e razão sempre representou uma fronteira de difícil diálogo no território do conhecimento. Aparentemente, fé e razão são elementos divergentes, pois a fé carrega consigo uma profunda carga religiosa, por vezes, associada ao mistério, enquanto a razão apresenta-se no âmbito do saber aberto, próprio da filosofia e da ciência.
O filósofo Erich Fromm observou que: “Enquanto a fé racional é o resultado da atividade interior da pessoa, em pensamento ou sentimento, a fé irracional é a submissão à determinada coisa que se aceita como verdadeira, independentemente de sê-la ou não”(¹).
Kardec realizou a crítica da fé irracional, dogmática ou cega. Em sessão na Sociedade Parisiense(²) , ele tem a oportunidade de dialogar com o espírito de um padre que desencarnara adversário do espiritismo. O diálogo é muito esclarecedor, pois aborda o problema da crença e da fé racional. Enfatiza o discípulo de Pestalozzi, que o espiritismo deixa a cada um a inteira liberdade de exame de seus princípios. Qualquer princípio baseado no erro cai pela força mesma das coisas. Assim, as ideias falsas postas em discussão mostram seu lado fraco e se apagam ante o poder da lógica e dos fatos.
Não raras vezes nos deparamos com estudos espíritas distantes do que preconizava Kardec, pois aos participantes é vedada a análise e discussão dos textos. Qualquer estudo sério da filosofia espírita deve permitir o espaço do debate fundamentado, da análise estruturada em argumentos lógicos e responsáveis, ao invés de leituras intermináveis e cansativas sem nenhum aproveitamento. Dogmatizar os estudos é colaborar para o enraizamento de crenças, que já deveriam estar superadas no meio espírita.
Kardec foi um defensor da dialética, do argumento, do debate de ideias, necessários à construção do conhecimento e da própria fé. O espiritismo, dizia ele, não impõe uma crença cega, pois deseja que a fé se apoie na compreensão. Por isso, deixa a cada um inteira liberdade de examinar seus princípios e aspectos. Sem a pretensão de colocar um ponto final em tudo, por não se tratar uma macro teoria salvacionista, o espiritismo, postulando a fé racional, enfatiza o papel da dúvida como elemento humano e natural, na busca por um saber quase sempre relativo, consubstanciado na progressividade do conhecimento.

[1] FROMM, Erich. A Revolução da Esperança5ª. Ed. Trad. Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984. Pág. 31-32.
2 KARDEC, Allan. Partida de um adversário do Espiritismo para o mundo dos espíritos. Revista Espírita. Outubro de 1865. P. 295. Edicel.




No mês do livro espírita, os intercâmbios do CCEPA
No mês de abril, tradicionalmente comemorado como o mês do livro espírita, serão realizados alguns intercâmbios do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, com outras instituições e pensadores espíritas brasileiros. Assim:

Medran em Balneário Gaivota, dia 4
A convite do Centro Espírita Allan Kardec, de Balneário Gaivota/SC, o presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira, proferirá palestra, naquela instituição, no dia 4 de abril, sábado, às 19h, abrindo ciclo de palestras comemorativas aos 150 anos do livro “O Céu e o Inferno”. Abril assinalará também o 8º aniversário daquela instituição. Tema da palestra de Medran: “Anjos e demônios – um enfoque espírita”.

W Garcia no CCEPA, dia 10
O escritor espírita Wilson Garcia proferirá palestra no CCEPA, aberta ao público, e especialmente destinada aos colaboradores e estudiosos do espiritismo do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Tema: “Chico, você é Kardec?”, título de obra do conferencista, que é um dos mais importantes escritores espíritas da atualidade. W Garcia autografará várias de suas obras, por ocasião da palestra no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.



Salomão em Osório, dia 21
O Diretor do Departamento Doutrinário do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya, abrirá, em Osório/RS o Ciclo de Estudos Kardecistas, promovido pela Sociedade Espírita Amor e Caridade, com a palestra “Reflexões acerca da Natureza, Caráter e Objetivo do Espiritismo”, a ser proferida às 20h do dia 21 de abril. Antecederá à palestra um encontro para troca de ideias entre trabalhadores do CCEPA, que acompanharão Salomão, e do Centro anfitrião.

Começa este mês o Curso Básico de Espiritismo
Inicia no próximo dia 25 de março o Curso Básico de Espiritismo, a ser ministrado às quartas-feiras, às 15h, no CCEPA, pelo Diretor Doutrinário Salomão Jacob Benchaya e a pedagoga e colaboradora da instituição, Dirce Teresinha Carvalho Leite. As inscrições são gratuitas. Informações pelo fone 3209 3092 ou ccepars@gmail.com .
O curso estende-se por cinco quartas-feiras consecutivas, no mesmo horário.






Lento e doloroso progresso
Senhor editor: Penso que deveria republicar o artigo “Lento e Doloroso Progresso”, da edição de dezembro de 2005, com algumas observações adicionais referentes à imensa corrupção política do momento. Aquele artigo continua atualíssimo, apesar de nove anos passados.
Abraços.        
Gilberto Guimarães Silva – gilbertoguima@uol.com.br

Nota da Redação – O artigo referido pelo leitor apareceu como “Nossa Opinião”, na matéria “A corrupção que nos envergonha”, capa da edição n. 126 do jornal CCEPA Opinião. O editorial que publicamos nesta página faz novas considerações sobre o tema.  
A edição 126 pode ser buscada em: http://www.espiritnet.com.br/Opiniao/Ano2005/opiniao12.htm

Qualidade editorial
Me puse a revisar los últimos números que tenía de CCEPA Opinião/América Espírita sobre mi escritorio y me llena de orgullo participar de una Revista Espírita de tanta calidad. Es excelente la parte editorial que siempre escribe el edictor Milton Medran Moreira, con artículos tambien reproducidos por Abertura, de Instituto Cultural Espírita de Santos. También la selección de artículos y los temas son excelentes, así como la diagramación. Quisiera hacerte llegar, Milton, mis felicitaciones por tanta dedicación y esmero puestos al servicio de la difusión de “nuestro” ideal espírita. Un abrazo grande, agradecido y afectuoso, por la excelente labor de todo el equipo de CCEPA, especialmente de mi amigo Maurice Herbert Jones, a quien deseo lo mejor siempre.
Dante López – Rafaela/Argentina.

Fanatismo
“Quando o fanatismo, seja ele religioso, político ou ideológico, passa a habitar a alma humana, sua mente se fecha para a razão”. Destaco esta frase da coluna “Opinião em Tópicos” (janeiro/fevereiro de CCEPA Opinião) para lamentar que nosso querido Brasil, ultimamente, também está sendo cenário de muito fanatismo, tanto no campo religioso (pastores que incutem crenças ultrapassadas para extorquirem dinheiro de pessoas despreparadas), quanto ideológico (políticos que se vestem de ovelhas, mas que são lobos muito perigosos). Até quando?
Josemara C. Soremar – Porto Alegre.

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