UNA ACLARACIÓN MUY OPORTUNA

Ponemos en el conocimiento de nuestros amables lectores que todo el material que ofrecemos como posts en este blog ha sido extraído de la obra LOS FUNDAMENTOS DEL ESPIRITISMO, previa autorización de su autor nuestro distinguido amigo Prof. Jon Aizpurua.

No nos atreveríamos a divulgar este precioso e invaluable material doctrinario y de divulgación de la cultura espírita si no tuviésemos de antemano la autorización expresa de su autor, de lo contario incurriríamos en el plagio, actitud que nos despierta repugancia tan sólo con mencionar el término.

Hemos escogido esta obra, LOS FUNDAMENTOS DEL
ESPIRITISMO, porque estamos seguros que ella constituye la exposición más actualizada de los postulados doctrinarios expresados por el Codificador Allan Kardec, enmarcados en nuevo contexto paradigamático; el vigente en estos tiempos que corren.

En LOS FUNDAMENTOS DEL ESPIRITISMO el autor reinvidica el verdadero carácter de la Doctrina Espírita, como un sistema de pensamiento laico, racionalista, e iconoclasta, alejado de todo misticismo religioso, tal como fue codificada la Doctrina por el Maestro Allan Kardec en el siglo diecinueve.

Esta obra es eminentemente didáctica, porque está escrita en un estilo ágil y ameno, sin que por ello pierda consistencia en su brillante exposición de ideas, llegando a toda clase de público lector, desde el estudioso del Espiritismo hasta aquellas personas que se encuentran en la búsqueda de una filosofía racional que les ayude a pensar al mundo y a sí mismos.

René Dayre Abella
Nos adherimos a los postulados doctrinarios sustentados por la Confederación Espiritista Panamericana, que muestran a la Doctrina Espírita como un sistema de pensamiento filosófico laico, racionalista e iconoclasta. Alejado de todo misticismo religioso. Apoyamos la Carta de Puerto Rico, emanada del XIX Congreso de la CEPA en el pasado año 2008.

martes, 16 de octubre de 2012


Codificador e Codificação
Diz Sérgio Maurício:
Codificação e codificador?
Sergio Mauricio

É muito comum no meio espírita o uso das expressões "codificador" e "codificação" para referir-se respectivamente a Kardec e às suas obras.

Desde que me iniciei nos estudos espíritas, fiquei curioso com a quase onipresença desses vocábulos nos textos e nas conversas sobre espiritismo. Debrucei-me, então, sobre a questão para buscar melhor compreendê-la. Primeiro, a obviedade dos dicionários:

No Novo Dicionário Brasileiro, Melhoramentos, encontra-se:
"Codificação, s. f. Ato ou efeito de codificar.
Codificar, v. tr. dir. 1. Reduzir a código; reunir em código. 2. Coligir.
Código, s. m. 1. Compilação de leis ou regulamentos. 2. Conjunto das convenções e uso em determinado domínio; norma, regra. 3. Sistema lingüístico, pelo qual se transcreve ou traduz uma mensagem".

No Dicionário Aurélio Básico, da Nova Fronteira, encontra-se:
"Codificação. S. f. 1. Reunião de leis em código (1). 2. Aplicação de código (6 e 7).
Codificar. V. t. d. 1. Reunir em código (2). 2. Reduzir a código (6 e 7). 3. Transformar em códice; reunir, coligir, compilar.
Código. S. m. 1. Coleção de leis. 2. Conjunto metódico e sistemático de disposições legais relativas a um assunto ou a um ramo do direito. 3. Coleção autorizada de fórmulas médicas ou farmacêuticas. 4. Coleção de regras e preceitos. 5. Norma, regra, lei. 6. Vocabulário ou sistema de sinais convencionais ou secretos utilizados em correspondências e comunicações. 7. Palavra-chave, formada de 10 letras diferentes, dum sistema em que se substituem algarismos por letras, na marcação do preço de mercadoria".

Na Grande Enciclopédia Larousse Cultural, da Larousse e da Nova Cultural, encontra-se:
"Codificação. s. f. 1. Ação de codificar, de reunir em um código textos de leis, regulamentos. 2. Ação de erigir um sistema coerente de regras. 3. Ação de codificar um texto, informações ou valores numéricos.
Codificar. v. t. 1. Reduzir a código. 2. Reunir leis em código. 3. Aplicar um código a certos dados.
Código. s. m. 1. Coleção de leis. 2. Coleção de regras e preceitos. 3. Sistema de símbolo ou de sinais que permite a representação de uma informação. 4. Conjunto de regras que permite a transposição de sistemas de símbolos sem alterar o significado da informação transmitida".

O que surge com clara evidência das definições acima descritas é a relação entre o vocábulo "código" e o conteúdo normativo, exceção feita às questões lingüísticas, tais como senhas e símbolos. Codificar, portanto, seria, pelas definições acima, reduzir a código, ou seja, leis e normas.

O espiritismo constante nas obras kardecistas jamais pretendeu estipular leis e normas sociais ou comportamentais. Sua proposta é de alcance individual, de análise e de transformação pessoais. Associar, outrossim, espiritismo a um conjunto de leis e normas –um código–, seria reduzir de forma drástica seu alcance e corromper intrinsecamente sua proposta.

Restaria, ainda, a definição que sinonimiza "codificar" a "coligir" ou "reunir". Entretanto, aqui também se coloca um problema. O espiritismo não é uma reunião de idéias, ou conceitos, ou mensagens, ou qualquer outra coisa. O espiritismo é uma construção filosófico-científica, com significação imanente e coerência sintática, e não um conjunto alquebrado de seja lá o que for. Como a psicologia e a sociologia também não são codificações.

Diante do colocado, não se deve referir ao espiritismo como uma codificação e Kardec como um codificador, e isso não apenas por mero diletantismo ou preciosismo lingüístico, mas pelo uso incorreto dessas expressões, que acabam por, em sua apenas aparente não intencionalidade, propor uma nova compreensão do espiritismo, que o reduz a uma simplória codificação de normas e leis para uso comportamental de seus adeptos.



·        Diz Augusto Araújo (Lista de Debates da CEPA, em 16/10/12):
Depois que o Jornal Opinião publicou meu texto "Allan Kardec: autor da doutrina dos Espíritos?" (JUL/2010), Wilson Garcia fez publicar, no mesmo Jornal (Out/2010) uma contra-reflexão que me deu algo que pensar. O termo codificador, por si, não elimina a tese da autoria. Mesmo que codificar significasse apenas "reduzir a código", no sentido apropriado por Sérgio que acentua o caráter normativo, ainda assim Kardec poderia ser chamado de autor.

Como se sabe, a base do sistema kardeciano é um fenômeno comunicativo. Há uma mensagem emitida - ou, no caso, várias mensagens emitidas por várias fontes, e aqui não importa tanto se tais fontes são espíritos ou não - e um receptor. Essas diversas mensagens sozinhas, meramente ajuntadas como em uma coleção, não são suficientes para se chamar de uma doutrina. E, aqui ninguém pode discordar que Kardec tenha por objetivo retirar dessa grande massa de comunicações uma nova doutrina, um discurso coerente e plausível. Os grandes tratados doutrinários estão aí como prova cabal dessa intenção. Ora, porque esse trabalho de Kardec não poderia ser compreendido como a codificação de uma mensagem que ele já, de antemão, esperava encontrar ao lidar com suas fontes primárias?

Há, em Kardec, uma presunção de racionalidade. Mesmo que as primeiras impressões sejam confusas, mesmo que as comunicações contenham aparentes contradições, etc. há uma mensagem racional que é preciso "decodificar" em meio a tudo isso. Esse 'decodificar' é um interpretar, um 'decifrar o código' em busca do 'fundo comum', racional, da suposta mensagem que os Espíritos tentavam transmitir. Uma vez decodificada a mensagem, para ser comunicada e compreendida por outros, precisa ser novamente 'codificada' e apresentada em sua razoabilidade. O processo é similar ao trabalho de tradução. Quem lida com tradução sabe que, muitas vezes, não se trata apenas de substituir vocábulos de um léxico a outro. Há estruturas em um código linguístico que são intraduzíveis dessa maneira. Antes, será preciso quebrar o código normativo de uma determinada língua de origem, para recodificá-lo nos usos do código normativo da língua de destino. Caso contrário, a tradução se tornaria ininteligivel. Desse modo, o ofício da tradução é uma decodificação-codificação criativa, pois o tradutor interpreta a língua de origem e a reconstroi o sentido na língua de destino.

Bem, o processo produtivo da doutrina, em Kardec, é como esse processo de tradução/interpretação/codificação. É um processo ativo, não passivo. Por isso não vejo grandes problemas em me referir a Kardec como codificador. De certa maneira, eu também estou 'codificando' o pensamento de Kardec ao interpretá-lo, ao tentar solucionar em minha leitura as aparentes contradições desse pensamento.

Compreendo que, no movimento espírita, o uso que se faz do termo esteja muitíssimo eivado de algumas preconcepções que esvaziam o papel de Kardec enquanto autor. Por isso, compreendo que alguns considerem-no impróprio. Eu, porém, não tenho essa mesma preocupação.

O texto do Wilson Garcia pode ser lido neste link: http://ccepa-opiniao.blogspot.com.br/2010_10_01_archive.html


·        Diz Dora Incontri (http://www.redeamigoespirita.com.br/group/artigosespiritas/forum/topics/por-que-nao-chamo-mais-kardec-de-codificador):
Por que não chamo mais Kardec de codificador
Dora Incontri

Esse termo não aparece em nenhuma obra de Kardec e só se vê o seu uso no Brasil. No dicionário Houaiss, codificar significa: “reunir numa só obra textos, documentos, extratos oriundos de diversas fontes; coligir, compilar”. Ora é exatamente essa a ideia que a maioria dos espíritas tem a respeito do trabalho de Kardec. Há muito tempo, já desde o meu livro “Para entender Allan Kardec”, compreendi que o papel de Kardec no Espiritismo não foi apenas o de compilador, organizador de ideias prontas, vindas dos Espíritos. Essa visão bem típica do movimento espírita brasileiro reduz o Espiritismo a uma revelação acabada, sacralizada, e a função de Kardec a uma espécie de secretário dos Espíritos. Bem diferente é o que ele pensava sobre seu próprio trabalho. Diz ele em Obras Póstumas:
“Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como houvera feito com homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me informar e não reveladores predestinados.”
E na Gênese:
“O homem concorre para a revelação com o seu raciocínio e o seu critério; desde que os Espíritos se limitam a pô-lo no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos fatos. Ora, as manifestações (...) são fatos que o homem estuda para lhes deduzir a lei, auxiliado nesse trabalho por Espíritos de todas as categorias, que, de tal modo, são mais colaboradores seus do que reveladores, no sentido usual do termo.”
Na verdade, Kardec foi um pesquisador, criador de um método genial que reúne a investigação científica dos fenômenos mediúnicos, com a articulação racional, filosófica e a revelação espiritual. Pela primeira vez na história da humanidade, a revelação é passada pelo crivo científico e a ciência se abeira da espiritualidade com métodos próprios de observação.
No Brasil, perdemos os critérios de racionalidade e pesquisa que Kardec criou para a análise dos fenômenos mediúnicos e ficamos apenas com a revelação, aceita cegamente. Qualquer coisa que qualquer médium diga ou receba é aceito sem questionamento!
Portanto, a nossa homenagem a Kardec no dia de hoje é ao grande pesquisador, pensador, fundador do Espiritismo – ainda muito desconhecido, desconsiderado e incompreendido, por não-espíritas e pelos próprios que se dizem seus seguidores.


·        Diz Wilson Garcia (OPINIÃO - ANO XVII - N° 179 - OUTUBRO 2010):

Antiga e velha, mas ainda tão nova
Wilson Garcia, escritor, jornalista e professor universitário, Recife/PE

Codificador, autor, criador e até mesmo inventor são alguns dos termos utilizados para designar a relação de Allan Kardec com a Doutrina Espírita. Às vezes em tom de crítica à popularização do adjetivo codificador, que sem dúvida encontrou espaço maior no campo do movimento, às vezes por conta de estudos sérios que buscam compreender a doutrina lançada a público a partir de 1857, na França. 
O mineiro Augusto Araújo tem debatido pelas listas da Cepa este e outros temas vinculados aos seus interesses de estudo, enquanto produz sua tese de doutoramento baseada “na leitura e interpretação da obra de Allan Kardec"1. Tem ele reiterado em algumas oportunidades não ser adepto do espiritismo, mas suas intervenções têm revelado sempre respeito e admiração e recebido por parte dos listeiros grande atenção e interesse, além do espaço de discussão bastante profícuo.
No texto que fez publicar no jornal Opinião abaixo mencionado, Araújo expõe suas razões histórico-metodológicas pelas quais entende ser Allan Kardec o autor da doutrina dos espíritos, preferindo este termo aos demais. Baseia-se num raciocínio lógico em que compara as produções filosóficas atribuídas aos pré-socráticos e aquela realizada por Allan Kardec no século XIX. Lamenta o desaparecimento das fontes utilizadas por Kardec (as comunicações dos espíritos), razão pela qual se sente impedido de reconhecer a face “científica” do espiritismo. Ou seja, já não se tem mais condições de analisar comparativamente o pensamento dos autores espirituais e o de Kardec no seu trabalho de produção da doutrina.
Por mais que os espíritas profundamente ciosos de suas crenças justifiquem a pouca importância que atribuem a isso, na opinião de que o conhecimento que a doutrina oferece tem valor maior, afirmando mesmo às vezes que é o que interessa, não se pode negar os fatos. Isso não diminui o valor do espiritismo, absolutamente, mas a lacuna deixada pelo desaparecimento das fontes primárias impede um trabalho mais amplo de análise comparativa. O caminho aí, portanto, embora não estacione, bifurca-se.
A questão da codificação-autoria levantada por Araújo permite outros raciocínios. O termo “codificador”, bastante criticado por alguns, não está em oposição ao que se conhece em comunicação na contemporaneidade. O termo sofreu desgastes, é verdade, com seu uso generalizado por incorporar outras significações, como, por exemplo, a ideia implícita de que o codificador foi apenas um ordenador cuja participação não passou deste limite, o que conferiria maior autoridade às mensagens originais e colocaria Kardec no papel de intermediário isento.
Em sua significação semântica o termo codificar é empregado para designar a ação de produzir mensagem através do código linguístico que deverá ser “decodificado” pelo destinatário. Em princípio, todo emissor é um codificador e todo destinatário é um decodificador. Mas a ideia de uma comunicação circular nos leva à compreensão de que emissor e destinatário se alternam nestas duas posições, ou seja, Kardec foi decodificador quando estudou as mensagens e codificador quando as ordenou. Nesse processo, evidentemente, sua intervenção deixou as marcas da sua individualidade mostradas pelas evidências.
Assim, Kardec terá sido um codificador ativo, participante e, como é consenso entre os espíritas, autorizado pelas fontes. Se na ausência dos documentos originais contendo as mensagens se afirmará que ele, Kardec, é o autor, para os espíritas deverá ser visto como co-autor, ou seja, o material fornecido pelas fontes espirituais recebeu a impressão do pensamento de Kardec.
Mesmo que Kardec tivesse sido uma espécie de coordenador passivo, ainda assim suas marcas estariam presentes no produto final, porque selecionar e ordenar o material implica em tomar decisões e fazer opções, incluir e excluir, dar voz e retirar a voz, o que, em última palavra, significa participar do e definir o produto final. 
Kardec, porém, foi muito além disso. Foi também intérprete das vozes espirituais, liderou um processo, produziu questionamentos, direcionou temas, solucionou contradições, superou dilemas, concordou e discordou até chegar a um ponto consensual com as fontes espirituais.
Talvez aqui devamos tocar na transcrição que Araújo faz de um dos diversos trechos em que Kardec fala sobre a sua participação na obra doutrinária, texto que serve a Araújo para reforçar sua convicção sobre a posição autoral de Kardec. Ei-lo.
“Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857.”
Araújo questiona o emprego do verbo “retocar” como tradução do francês “remanier”, entendendo que maior precisão haveria se fosse usado o verbo reparar, modificar ou refazer. Apesar das justificativas etimológicas oferecidas por Araújo, parece-me que em nenhum desses casos, ou seja, o emprego de qualquer dos verbos sugeridos ou a manutenção do verbo escolhido pelo tradutor não resolveria a questão da intencionalidade de Kardec.
Não há como dimensionar a ação de Kardec em relação às mensagens por ele comparadas e fundidas, senão especular. Aqui, com certeza, o desaparecimento dos originais se torna mais significativo de ponto de vista do interesse do pesquisador, ao impossibilitar qualquer avanço no desejado estudo comparativo.
O que significa, de fato, comparar, fundir e retocar “no silêncio da meditação”? Qual é a extensão disso em relação às ideias e respostas dadas pelos autores espirituais? A declaração de Kardec tem o objetivo simples de chamar para si a responsabilidade do produto final ou vai além? Qualquer resposta objetiva aqui será mera conjectura.
Estou curioso com a tese que o Augusto Araújo está produzindo e pelo que tenho acompanhado deverá apresentar boa contribuição à compreensão do espiritismo. Da mesma forma, estou convicto de que a questão codificador-autor deveria ser vista com mais naturalidade, na perspectiva de que como codificador é também co-autor e como co-autor é ainda assim o codificador de uma mensagem tão complexa quanto extraordinária.
1 Jornal Opinião, p4, Porto Alegre, julho de 2010.


·        Diz Augusto Araujo (OPINIÃO - ANO XVI - N° 176 - JULHO 2010):

 

ALLAN KARDEC: O AUTOR DA DOUTRINA DOS ESPÍRITOS?
Augusto Araujo 
Doutorando em Ciência da Religião (PPCIR/UFJF). 
Contato: acdaraujo@gmail.com 

Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857. (Allan Kardec)1 

Quem quer que tenha tido em mãos um livro de história da filosofia deve ter notado que logo nos primeiros capítulos são apresentadas as doutrinas filosóficas dos chamados filósofos “pré-socráticos” ou “fisiólogos”. O que, talvez, poucos saibam é que não existe, a rigor, a doutrina filosófica de Tales de Mileto, ou de Heráclito de Éfeso, por exemplo. De fato, a maioria dos textos de que dispomos desses pensadores é insuficiente para se afirmar a existência de tal doutrina. O que se tem são fragmentos (frases, pedaços de frases, às vezes, uma única palavra) citados ou parafraseados por outros autores e filósofos. Uma lista tão variada que inclui pensadores como o grego Aristóteles e o cristão e pai da Igreja Clemente de Alexandria; e tão extensa que cobre o período desde o século IV a.C. até o século VI d. C.
Assim, se tomarmos Heráclito como exemplo, é preciso que se diga que não há o livro "Sobre a natureza"2, a ele atribuído. Nem sabemos ao certo se ele escreveu mesmo um livro; ou, em caso afirmativo, se era esse mesmo seu título. Aquilo que nos manuais de história da filosofia é apresentado como a doutrina de Heráclito é tão somente uma interpretação arbitrária dos fragmentos encontrados e catalogados3 . No século XX, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) demonstrou que, dependendo da ordem em que os fragmentos são considerados ou organizados, ou dos pressupostos filosóficos assumidos na leitura desses fragmentos, diferentes interpretações se estabelecem. E, dessa forma, as interpretações serão sempre arbitrárias, uma vez que nem a obra original nós temos para comparar e verificar a validade delas 4.
Agora, se, num exercício de analogia, olharmos de maneira isenta para o modus operandi de Allan Kardec (1804-1869) veremos que se passa algo muito semelhante ao que acontece com os historiadores da filosofia no caso acima. Kardec, ao publicar suas obras sempre insistiu que a doutrina não era sua, mas dos Espíritos. No entanto, a confiar ainda nos relatos de Kardec, como se dá esse procedimento de “codificação” da doutrina dos Espíritos? Ele tem fragmentos de ensinos que vêm de fontes diversas e tem de arbitrariamente "codificá-los", ordená-los. E o faz. Nós não podemos verificar se essa interpretação é a mais adequada porque não temos acesso às fontes kardecianas (especificamente não temos acesso ao conteúdo bruto das comunicações por ele interpretadas). Esse impedimento metodológico de verificação tem me impedido de caracterizar o espiritismo como uma ciência.
Em outras palavras: penso que afirmar a existência da "doutrina de Heráclito" nas interpretações dos fragmentos a ele atribuídos, e afirmar que existe uma doutrina dos espíritos na interpretação das comunicações recebidas por Kardec, possui o mesmo grau de incerteza. Ora, como afirma o próprio Kardec na frase citada acima: “Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857”. O original diz: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857" (o grifo é meu).
Aqui gostaria de fazer um breve comentário sobre a escolha do uso do verbo “retocar” para traduzir o francês “remanier”. Não que esta tradução esteja equivocada, em minha opinião ela apenas enfraquece o sentido original do termo francês. A etimologia do verbo “remanier” remete a “manier” que tem o sentido primeiro de “manipular”, tocar com as mãos. Daí que o Dictionnaire de l’Académie Française (6eme Édition, 1835), defina o verbo “remanier” como: manipular novamente, reparar, modificar, refazer. Ou, ainda, segundo o Dictionnaire Poche Larousse (2008): mudar a composição, modificar. No contexto dessa pequena observação, uma tradução mais precisa talvez fosse: "Da comparação e da fusão de todas estas respostas coordenadas, classificadas e muitas vezes reparadas (modificadas, refeitas) no silêncio da meditação, que eu formei a primeira edição do Livro dos Espíritos, o qual apareceu a 18 de abril de 1857".
Uma última analogia, talvez esclareça melhor meu posicionamento. Embora o trabalho de pesquisa que venho realizando, e que culminará na publicação de minha tese de doutoramento, se baseie todo na leitura e interpretação da obra de Allan Kardec, e neste trabalho não se encontre nada que Kardec não tenha dito e pensado, há que se concordar que se trata de meu trabalho e não de Kardec. Penso que não importa se as fontes de uma pesquisa sejam os Espíritos ou um pensador “de carne e osso”; se alguém compila, classifica, modifica, edita, interpreta suas fontes, ele é o autor.

KARDEC, Allan. A minha iniciação no espiritismo. In: ______. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2009. P. 353. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra). O texto original em francês é: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857". (Cf.: KARDEC, Allan. Ma première initiation au espiritisme. In: ______. Oeuvres Posthumes. Union Spirite Française et Francophone. s/d. p. 128).


2 O título Péri Physeos (em grego) é um título genérico atribuído a grande parte das supostas obras dos pensadores gregos originários.


3 No início do século XX, o helenista alemão Hermann Alexander Diels (1848-1922) publicou a obra Os fragmentos dos pré-socráticos, na qual colecionou os fragmentos dos chamados pré-socráticos e os classificou, após tê-los retirado das obras onde se encontravam citados ou parafraseados. Posteriormente, Walther Kranz (1884-1960) acrescentou um comentário interpretativo aos fragmentos catalogados por Diels. Esta obra tornou-se, desde então, referência para todos os trabalhos críticos e interpretativos da filosofia antiga. A classificação DIELS-KRANZ, tornou-se normativa para todas as referências aos fragmentos.


4 Ver: HEIDEGGER, Martin. Heráclito. A origem do pensamento ocidental. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998. (Trad.: Márcia Sá Cavalcante Schuback). Para outra interpretação, ver: BERGE, Damião. O Lógos Heraclítico. Introdução ao estudo dos fragmentos. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969.
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